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26 de jun. de 2017

NINA HAGEN


Eu estava lá na primeira edição do Rock In Rio (1985), e bem no dia em que essa alienígena subiu no palco com uma puta banda cheia de swing e bem humorada! Melhor show da noite.
Desde lá e até semana passada só conhecia o álbum que a tornou famosa mundialmente cantando em inglês e que contém clássicos como New York New York e What It Is. Mas sua discografia e carreira é muito mais potente, irreverente e antiga. Ando encantado com sua originalidade, não deve nada ao maluco Frank Zappa que inclusive apadrinhou a cantora e a fez conhecida na América.
Sem dúvidas, é uma diva do pop. Sua voz não tem medo de se expressar, conhece as artimanhas do canto erudito e de todas as vertentes do rock. E cantando em sua língua, o alemão, ai tudo fica mais dramático, intenso e curioso.
Presto uma rápida homenagem montando esse poster que contém imagens de sua performance em um de seus sons mais loucos: Naturtrane

25 de mar. de 2017

ELOMAR: O VERDADEIRO TROVADOR BRASILEIRO




Prosa crítica de: VINÍCIUS DE MORAES

"A mim me parece um disparate que exista mar em seu nome, porque um nada tem a ver com o outro. No dia em que "o sertão virar mar", como na cantiga, minha impressão é que Elomar vai juntar seus bodes, de que tem uma grande criação em sua fazenda "Duas Passagens", entre as serras da Sussuarana e da Prata, em plena caatinga baiana, e os irá tangendo até encontrar novas terras áridas, onde sobrevivam apenas os bichos e as plantas que, como ele, não precisam de umidade para viver; e ali fincar novos marcos e ficar em paz entre suas amigas as cascavéis e as tarântulas, compondo ao violão suas lindas baladas e mirando sua plantação particular de estrelas que, no ar enxuto e rigoroso, vão se desdobrando à medida que o olhar se acomoda ao céu, até penetrar novas fazendas celestes além, sempre além, no infinito latifúndio. Pois assim é Elomar Figueira de Melo: um príncipe da caatinga, que o mantém desidratado como um couro bem curtido, em seus 34 anos de vida e muitos séculos de cultura musical, nisso que suas composições são uma sábia mistura do romanceiro medieval, tal como era praticado pelos reis-cavalheiros e menestréis errantes e que culminou na época de Elizabeth, da Inglaterra; e do cancioneiro do Nordeste, com suas toadas em terças plangentes e suas canções de cordel, que trazem logo à mente os brancos e planos caminhos desolados do sertão, no fim extremo dos quais reponta de repente um cego cantador com os olhos comidos de glaucoma e guiado por um menino - anjo a cantar façanhas de antigos cangaceiros ou "causos" escabrosos de paixões espúrias sob o sol assassino do agreste.
Elomar nasceu em Vitória da Conquista, cidade que também deu vez a Glauber Rocha e Zu Campos, e depois de formar-se em arquitetura pela Universidade Federal da Bahia, ocupa atualmente o cargo de Diretor de Urbanismo em sua cidade. Mas do que gosta realmente é de sua caatingueira, uma das mais ásperas do sertão brasileiro, onde cria bodes e carneiros. Já me foi contado que um de seus reprodutores, o famoso bode "Francisco Orellana", quando a umidade do ar apresenta seus índices mais baixos - que usualmente é 10 graus - senta-se em posição estratégica sobre as patas traseiras e não se peja de urinar na própria boca, de modo a aproveitar, num instintivo e engenhoso recurso ecológico, a própria água do corpo para dessedentar-se.
E tem a onça. Vez por outra, a madrugada restitui a carcaça sangrenta de um bode ou um carneiro, e todas as preocupações cessam, a não ser chumbar a bicha. E a conversa entre os fazendeiros fica sendo apenas essa: onça, suas manias, suas manhas, seus pontos fracos.
Todo mundo se oncifica. Elomar sai à noite para tocaiá-la, e quando a avista só atira nela de frente. - Um bicho que vem de tão longe para matar meus bodes, esse eu respeito! - diz ele em seu sotaque matuto (apesar da boa cultura geral que tem) e que faz questão de não perder por nada, enojado que está da nossa suposta civilização.
Quando lhe manifestei desejo de passar uns dias em sua companhia e de sua família (Elomar é casado e tem um par de filhos, sendo que a menina tem o lindo nome de Rosa Duprado) para descobrir, em sua companhia e ao som do excelente violão que toca, essas estrelas reconditas que já não se consegue mais ver nos nossos céus poluídos, Elomar me disse: - Pode vir quando quiser. Deixe só eu ajeitar a casa, que não está boa, e afastar um pouco dali minhas cascavéis e minhas tarântulas...
É... Quem sabe não vai ser lá, no barato das galáxias e da música de Elomar, que eu vou acabar amarrando um bode definitivo e ficar curtindo uma de pastor de estrelas..."

Abril de 1973


23 de jan. de 2015

ENSAIO: PINCELADA MUSICAL

meu primeiro ensaio e postagem para o blog parceiro http://penseforadacaixa.com/  em agosto de 2013



Beethoven e Arnold Schoenberg, cada um em sua respectiva época, passaram por momentos semelhantes: depois de iniciarem suas carreiras respeitando os modelos musicais vigentes, partiram para uma jornada de implosão e explosão. E trazendo novidades inquietantes.
As primeiras obras de Beethoven, podem ser facilmente confundidas com a de algum grande expoente do período clássico, a exemplo de Haydn e Mozart. É verdade que nelas já existiam pequenos detalhes que fariam do compositor um inovador. Mas são suas obras tardias, como a nona sinfonia, as sonatas para piano e principalmente os últimos quartetos para cordas, que avançam e saltam no tempo. Parece que ele ignora todo o nascente período romântico do século XIX e finca bandeira no começo do século XX , tamanha é sua alucinação visionária. É como se ele estivesse dando um “hello” a Schoenberg que ainda nem havia nascido na época de suas últimas obras. Beethoven não é clássico e nem romântico, é atemporal e soube levar a música tonal a seus limites. Com sua morte, ficamos a nos deslumbrar com os românticos Mahler, Brahms, Chopin entre tantos outros deste período.
Mas nasce Schoenberg. E como Beethoven, surge bem engajado em seu momento musical, o romantismo tardio. Momento este que já apresentava muitas “notas estranhas e discordantes”.
Para entender a quebradeira que Schoenberg propôs, recorro a uma visão e comparação: imagine que a escala de Mi Menor seja um reinado. O rei “Mi”costuma a todo segundo sair de seu castelo e visitar seu vasto império “Menor” mas mantém sua segurança sempre retornando ao castelo. Assim funciona o sistema tonal, por mais que o compositor enrole e crie tensões, sentimos que a música irá descansar em seu centro tonal. Já o mundo maduro de Schoenberg é diferente: não há reis, castelos ou impérios...apenas plebeus igualitários eternamente circulando por subúrbios, florestas escuras e tenebrosas. E sem retorno pois não houve uma partida! Nascia então o sistema atonal e dodecafônico.
É bonito, é gostoso de se ouvir? Alguém agüenta ouvir duas vezes Pierrot Lunaire, sua obra mais famosa? Minha resposta para todas é não! Todo o pensamento revolucionário de Schoenberg no começo do século XX é como uma masturbação mental, um porre. Mas está de acordo com as tribulações do mundo moderno e suas desilusões.
Os dois músicos marcaram a música erudita de tal forma que hoje em dia sobrou pouco espaço para inovações. Talvez a maior novidade de nosso tempo tenha sido a alquimia dos eruditos com as imagens encontradas no cinema.