17 de dez de 2011

UMA EXPERIÊNCIA EM CONSCIÊNCIA CÓSMICA


PARAMAHANSA YOGANANDA "Raras vezes Sri Yukteswar expressava-se por enigmas;fiquei confuso.Ele golpeou meu peito levemente,acima do coração.
Meu corpo imobilizou-se como se tivesse raízes;o ar saiu de meus pulmões como se um imã enorme o extraísse.Instaneamente,a alma e a mente romperam com sua escravidão física e jorraram de cada um dos meus poros como luz perfurante e fluida.
A carne parecia morta e,contudo,em minha intensa lucidez,percebi que nunca antes estivera tão plenamente vivo.Meu senso de identidade já não estava mais limitado a um corpo e sim,englobando átomos à minha volta.Pessoas em ruas distantes pareciam mover-se suavemente em minha própria e remota periferia.Raízes de plantas e árvores apareciam através de uma tênue transparência do solo;eu distinguia a circulação da seiva.
A vizinhança inteira surgia desnuda diante de mim.Minha visão frontal comum havia-se transformado em vasta visão esférica que percebia tudo simultaneamente.Pela parte de trás da cabeça,vi homens caminhando na distante Rai Ghat Lane e também notei uma vaca branca aproximando-se preguiçosamente.Quando chegou ao portão aberto do ashram,observei como se o fizesse com meus dois olhos físicos.Depois que passou para trás do muro de tijolos do pátio,continuei a vê-la,claramente.
Todos os objetos em minha visão panorâmica tremiam e vibravam como um filme acelerado.Meu corpo e o do meu Mestre,o pátio com colunas,a mobília,o chão,as árvores e a luz do sol,tornavam-se,de vez em quando,violentamente agitados até que tudo se fundia num mar luminescente,assim como os cristais de açúcar,mergulhados num copo de água,diluem-se depois de serem sacudidos.A luz unificadora alternava-se com materializações de forma e as metamorfoses revelavam a lei de causa e efeito na criação.
Uma alegria oceânica rebentava nas praias serenamente intermináveis em minha alma.O espírito de Deus,percebi,é bem-aventurança inesgotável;seu corpo compreende incontáveis membranas de luz.Um sentimento de glória crescente dentro de mim começou a envolver cidades,continentes,a Terra,o sistema solar,constelações,as tênues nebulosas e os universos flutuantes.O cosmos inteiro,suavemente luminoso,semelhante a uma cidade vista de alguma distância à noite,cintilava dentro da infinitude de meu ser.
Para além de meus contornos definidos,a luz ofuscante empalidecia ligeiramente nos confins mais longínquos;ali eu via uma radiação branda,que nunca diminuía.Era indescritivelmente sutil;as figuras dos planetas constituíam-se de uma luz mais densa.
A divina dispersão de raios jorrava de uma fonte perpétua, resplandecendo em galáxias,transfiguradas com auras inefáveis.Vi,repetidas vezes,os fachos criadores condensarem-se em constelações e depois dissolverem-se em lençóis de transparentes chamas.
Por reversão rítmica,sextilhões de mundos transformavam-se em brilho diáfano e ,em seguida,o fogo se convertia em firmamento.
Conheci o centro do empírico como um ponto de percepção intuitiva em meu coração.Esplendor irradiante partia de meu núcleo para cada parte da estrutura universal.O beatífico amrita,néctar da imortalidade,pulsava através de mim,com fluidez de mercúrio.Ouvi ressoar a voz criadora de Deus,OM,a vibração do motor cósmico.
De súbito, o fôlego voltou aos pulmões.Com decepção quase insuportável,constatei que havia perdido minha infinita vastidão.
Estava novamente limitado à jaula humilhante de meu corpo,tão desconfortável para o espírito."




2 comentários:

  1. Cara este post foi pra mim?? Foi sim, pois é exatamente assim que me sinto após a experiência que tive. Não cheguei a tanto, mas me sinto como tendo uma 2ª chance.
    Cara, lindo post. É isso que falo. Tu pode me chamar de chata, não é o único, porém morro falando que amo os teus textos e que tens que postar mais.
    Um xero no cangote!!!

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  2. Ricardo, muito rico e minucioso em pormenores este texto. Este tipo de experiência vivida por muitos pessoas, deve ser divina e ao mesmo tempo devastadora, penso eu. Conhecer a impermanência e regressar de novo, muda totalmente o modo de vivencia e o prisma das coisas quotidianas. Um amigo meu, esteve durante 2 horas a entre a vida e a morte, a experiência que ele descreveu e o que viu, foi fascinante, tem muita coisa em comum com o que li aqui. Mas mudou radicalmente o modo de vida dele, nunca mais nada voltou a ser como dantes. Excelente artigo Ricardo. Adorei.
    Votos de um Iluminado fim de semana.
    Beijinhos de Luz!
    Ana Maria

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